“O Prostituto de Universidades”: conheça a história de Marcelo Leitão e suas candidaturas a pós-graduação no exterior

Ele se inscreveu para dois mestrados, um doutorado e um mestrado profissional, em três países diferentes, em quatro universidades, de uma só vez. Ganhou o apelido peculiar de Prostituto de Universidades e quase foi acusado de vender a alma ao Diabo. Quer saber no que deu? Com vocês, Marcelo Leitão, o arquiteto cearense que gosta de viver fortes emoções!

Desde o começo da minha graduação eu já tinha uma certeza: “eu quero estudar fora!”… Mas como eu conseguiria isso? Essa era a grande pergunta! Um dia eu parei e percebi que conhecia várias pessoas bem mais capacitadas do que eu, com um currículo e desempenho exemplar, mas pela falta de um simples quesito, a proficiência em uma língua estrangeira, não tinham nem chances de ao menos de participar de um processo seletivo. Logo, desde o inicio da minha graduação eu busquei aprender o máximo possível, pois cada língua é um leque de oportunidades que se abre na sua vida!

Marcelo em Wisconsin, nos EUA, durante seu intercâmbio!
Marcelo em Wisconsin, nos EUA, durante seu intercâmbio!

Após finalizar a minha graduação e ainda com foco nesse objetivo, tomei uma decisão difícil e fui contra todos os “bons conselhos”: larguei tudo no Brasil e fui para o exterior em busca de proficiência em alguma língua. Um ano depois, Maio de 2013, retorno ao Brasil, mas com planos de aplicar apenas no ano seguinte (em 2014 para ir no ano de 2015). Senti que ainda não estava pronto, que precisava pesquisar mais sobre o assunto, ganhar experiência e outras coisas… Até receber a ligação de um professor da faculdade.

– “Marcelo, tudo bem? Faz dois meses que estou tentando falar com você e não consigo. Precisamos resolver a sua pós-graduação!” falou o meu professor.

Confesso que naquele momento eu me animei bastante!, Mas logo em seguida bateu o medo e o sentimento “não estou preparado”. Conversei mais um pouco com o meu professor e acabei seguindo o seu conselho:

– “Você já tem toda a documentação? Tente, pois na pior das hipóteses, você ganhará pelo menos a experiência.”

E assim eu o fiz. Quase nos 45 minutos do segundo tempo (Agosto/2013) eu resolvi tentar, e se era para tentar, que fosse para valer a pena. Apliquei para 4 bolsas de estudos e a partir daquele momento eu estava mais conhecido entre meus amigos como “prostituto de universidade”: a que pagasse, eu iria! As bolsas foram:

  • PhD nos Estados Unidos pelo Ciências sem Fronteiras Capes/Laspau
  • Mestrado em Arquitetura na Alemanha pelo DAAD
  • Mestrado na Inglaterra pelo Consulado Britânico (Bolsa Chevening)
  • Mestrado Profissional nos Estados Unidos pelo Ciências Sem Fronteiras Capes/IIE

Foi um processo longo e bem estressante. Administrar uma candidatura de bolsa de estudos é difícil, imagina quatro? Devo ter sofrido alguns pequenos infartos no processo, mas sobrevivi e agora é só felicidade! (ops, spoiler). Todos os processos foram simultâneos, mas para facilitar, o processo, contarei em tópicos individuais:

 

1. PhD nos Estados Unidos pelo Ciências sem Fronteiras Capes/Laspau

Esta bolsa era (o que eu achava ser) o meu sonho. Foi o processo mais longo, caro e estressante, mas certamente o que me deu experiência para obter sucesso nos outros. As principais dificuldades no inicio foram a falta de informação e o tempo curto para finalizar tudo. Eu tinha menos de 1 mês para juntar toda a papelada, traduzir documentos, escrever plano de estudos e descobrir o que era o GRE, mas graças a ajuda de alguns santos (dentre eles estão alguns dos integrantes da equipe Abroaders) eu consegui enviar tudo a tempo.

Algo que me desmotivou bastante no início do processo foi a pequena quantidade de universidades que eu poderia me candidatar. Essa restrição se deu basicamente por três motivos: o meu tema é bem específico e poucas universidades oferecem pós-graduação nessa área, Building Science, focando em Sustentabilidade e Eficiência Energética em Arquitetura; eu não possuo título de mestre e boa parte dessas universidades pedia mestrado para ingressar no doutorado; e a minha pontuação do TOEFL era de 92 pontos (22/24/22/24), e boa parte das universidades que ofertam pós na minha área pediam 100 pontos. Quando me deparei com todas essas questões, percebi que o sonho não seria tão fácil quanto eu imaginava, mas essa não era hora para desistir e eu precisava fechar meu submission plan.Nadar para morrer na praia não é o meu lema!

No final das contas, o meu submission plan acabou ficando com apenas três universidades. Eu queria ter aplicado para Berkeley e Virginia Tech, apenas! Mas como eu havia entendido que precisava tentar pelo menos três, acabei adicionando Texas A&M, mesmo não sendo bem na minha área.

Um dia, estou no trabalho e recebo um e-mail muito gentil de Berkeley avisando que, infelizmente, eles não poderiam me oferecer uma vaga, que eu não ficasse triste, que o problema não era eu, mas o alto nível da concorrência. Eu, por desencargo de consciência, entrei no site do GradCafe e fui conferir o nível da pessoa que tinha sido aceita. Ela apresentava pelo menos (estratosféricos) 90% em cada quesito do GRE… acho que realmente ela merecia! hahaha

Algumas semanas depois eu recebi a carta de concessão da bolsa! Foi um alívio muito grande, pois pelo curtíssimo tempo que tive para montar o plano de estudos, não achei que seria concedida. Isso me fez acreditar que talvez o sonho ainda fosse possível. Ainda naquela semana, recebi o “não” de Virginia Tech, algo já esperado, pois eles aceitam de 1 a 2 estudantes de PhD na minha área por ano.

E para finalizar, fui aceito na Texas A&M! Mas, em meio a toda essa supressa, só me restavam dúvidas: Estou preparado para um Doutorado direto da graduação? Texas A&M não tem foco na minha área, vale a pena? Onde eu fui arrumar esse sonho?

No final das contas, acabei negando a oferta e abri mão da bolsa de Doutorado direto. O PhD é uma coisa muito séria, que exige muita dedicação e não valeria a pena fazer “de qualquer jeito”. Foi uma decisão bem difícil, pois até aquele momento eu não tinha nenhuma garantia de outra bolsa ou aceite de universidade, mas era o mais certo a ser feito.

A grande lição de tudo isso foi que sim, é possível conseguir a tal “lenda do doutorado sem mestrado”, mas nem sempre isso será o melhor para você! E como conselho, mesmo sem ter certeza do que você quer, tente e depois que você tiver o aceite você decide.

 

2. Mestrado em Arquitetura na Alemanha pelo DAAD

Quando eu me candidatei a essa bolsa eu estava me achando, crente que ia conseguir! Tinha tudo para dar certo, pois ela era exclusiva para arquitetura, e muitas pessoas por acreditarem que precisa falar alemão, deixam de tentar, reduzindo ainda mais a concorrência. O processo foi bem simples e de fase única. Mandei um pacote de 3kg de papel pro DAAD no Rio de Janeiro, que seria reencaminhado para Colônia, na Alemanha.. depois disso era só sentar e esperar. Até que um dia recebi uma ligação da minha mãe:

– “Filho, chegou aqui uma carta de um tal de DAAD para você..”

– “Mãe, isso é a resposta da minha bolsa! O pior é que não adianta nem eu pedir para abrir, pois a senhora não entenderá nada…”

Momentos de tensão até eu chegar em casa e ler um educado “Nein, nein, nein!”

Moral da história: Sabe de nada, inocente!

PS.: Foram 341 candidatos do mundo todo e 37 selecionados.

Marcelo, na Alemanha. "Existem muitos muros a desconstruir", diz a frase no muro (segundo ele, é claro, eu não falo alemão! rs)
Marcelo, na Alemanha. “Existem muitos muros a desconstruir”, diz a frase no muro (segundo ele, é claro, eu não falo alemão! rs)


3. Mestrado na Inglaterra pelo Consulado Britânico (Bolsa Chevening)

Eu fiquei sabendo dessa bolsa de estudos bem em cima do deadline, algo como um pouco mais de uma semana antes, mas como o processo é todo on-line, bem simples e eu já tinha toda a documentação, por que não tentar? Estudar na Bartlet School – University College of London era um sonho e eu jamais pensei que teria essa oportunidade um dia. A bolsa é extremamente concorrida, algo como 28 mil candidaturas no mundo inteiro, aproximadamente 3 mil só no Brasil. Comparando com a bolsa da do DAAD, só um milagre para eu conseguir!

Novamente, tive uma surpresa, mas desta vez foi boa! O consulado britânico quase me matou do coração, pois enviou um e-mail 7hrs da manhã me parabenizando, mas apenas 30 minutos depois um outro e-mail pedindo para desconsiderar o e-mail anterior. Fiquei horas sem respostas e sem saber se aquilo era uma pegadinha… tentei contato com os responsáveis, mas me foi dito que eles estavam tendo dificuldades em gerenciar as informações, que eu deveria esperar e seguir pensando positivamente. No final de um longo dia, chega um terceiro e-mail convocando novamente para a entrevista! Neste momento, mesmo sabendo que nada era certo ainda, foi só alegria, pois um milagre tinha acontecido: destes quase 3 mil candidatos, aproximadamente 100 pessoas haviam sido selecionadas para a segunda e última fase… e eu era um deles!

Segui para a segunda fase, fui para uma entrevista em Recife, consegui o aceite da UCL e estou esperando a resposta final, que deverá sair no final de maio, começo de junho. Moral da história: A vida me deu uma lição muito grande, mostrando que nem sempre o que é seguro (a bolsa do DAAD) é certo, e nem sempre o que é “impossível” é inalcançável. E a única forma de descobrir isso é tentando.. por isso: TENTE!

Na próxima semana, o Marcelo disponibilizará para os integrantes do #teamAbroaders (vocês, rs) a sua Statement of Purpose e a Personal History, documentos que teve que redigir para as suas candidaturas! Teremos um post sobre SoP com vídeo e exemplos para baixar. Não percam!


4. Mestrado Profissional nos Estados Unidos pelo Ciências Sem Fronteiras Capes/IIE

Depois de todos os processos seletivos, este que eu julgava ser meu coringa, acabou sendo meu “Ás”! A bolsa de estudos foi ofertada nas últimas e claro, eu já tinha toda a documentação. Eu passava nos requisitos mínimos por pouco, mas passava! Fiz toda a burocracia e depois de alguns meses, lá estava meu nome na lista. Para ter um pouco de emoção, a lista foi revisada e algumas pessoas saíram dela, mas meu coração já estava acostumado e meu nome seguia na segunda lista. O que dificultou foi o atraso no processo e com isso, pouquíssimas universidades ainda estavam aceitando candidaturas.

Como um bom bom brasileiro e que não desiste nunca, escolhi três universidades que ainda estavam abertas e mandei e-mail chorando para Berkeley e VirginiaTech. Berkeley negou de cara, estava com o mestrado lotado. VirginiaTech disse que eu poderia pedir revisão, mas que aconselhava que eu aplicasse para outro centro, pois como eu já havia sido negado uma vez, facilmente eu seria negado uma segunda. Mas eu segui sendo brasileiro e insisti: “Não, eu desejo aplicar para o mesmo centro!”

Certo dia, estou no fazendo compras no mercado e recebo um e-mail da VirginiaTech oferecendo ajuda para alugar apartamentos. Naquele momento eu perguntei: “Tu tá de brincation with me né VT? Já não sabes o que sofri e me mandas este tipo de coisa!” Larguei tudo e voltei para casa correndo, entrei no site da faculdade e lá estava! VOCÊ FOI ACEITO PARA O PROGRAMA DE MESTRADO!

Agora estou no meio das burocracias de visto, aluguel de apartamento, busca de roommates etc.. mas isso não é nada frente ao resto do processo, pois o sentimento que tenho é só alegria! Pedi muito que a vida me desse a chance de realmente escolher para onde eu queria ir, e eis que me foi concedido! Estou indo muito feliz de ir para VT e já abri mão da UCL (a de Londres). Talvez alguem se pergunte, mas como assim? Pensei em tudo e no final das contas vi que a VT é melhor para mim, mesmo a UCL sendo uma das melhores na minha área.

Como fechamento, realmente os processos são bem cansativos. Muitas vezes acreditei que era mais uma prova de resistência do que qualquer outra coisa, mas o sentimento de realização é indescritível. O único conselho que eu posso dar é: tente e se surpreenda!

Em um próximo post, compartilharei com vocês a experiência pós aceite e um pouco da vida por lá! Obrigado! 😉

PhD nos EUA: Existe vida durante o doutorado?

Hello, Gafanhotos!

Hoje temos um post especial. Nós, os Abroaders, estamos working hard para tirar suas dúvidas sobre as candidaturas para uma pós no exterior, MAS ainda não estamos lá! E, afinal, eu quero, tu queres, todos querem saber como é de fato estar lá estudando, fazendo o que você tanto está ralando para fazer. E se não for nada disso que estamos esperando?? :O [pensando bem, fale a verdade, você nem sabe direito o que esperar, não é mesmo?]

Pensando nisso,  entrevistamos a Gisele Ribeiro, PhD student de Geotechnical Engineering da Columbia University (NY). Isso mesmo, muito loosho. A Gisele é conhecida pela sua prestatividade  nos grupos do Facebook destinados ao edital de 2013 do Ciência Sem Fronteiras. Suas dicas inspiraram os Abroaders a fazer o mesmo nos grupos do ano seguinte, e finalmente a fazer este site! Ela esteve no seu lugar, no nosso lugar, e agora está vivendo o que por enquanto só está nos nossos sonhos [diários, eu garanto]. Vamos à entrevista??

Gisele e seu marido, no campus da Columbia University (NY). Ela merece!
Gisele e seu marido, no campus da Columbia University (NY). Ela merece!

A: Como você estruturou o seu Statement of Purpose (SoP) e quais dicas você daria àqueles que ainda não escreveram o documento?

G: Na minha opinião, o Statement of Purpose (SoP) é o documento mais importante na aplicação pro doutorado nos EUA. O motivo é muito simples: este é o documento onde você pode “vender seu peixe” pra quem for ler e cabe a você redigi-lo da maneira mais convincente possível. Documentos como histórico escolar, diploma e currículo são apenas transcrições de atividades já encerradas e não abrem espaço pra mostrar sua personalidade e suas qualidades. No meu SoP, inicialmente eu me apresentei e mostrei um pouco da minha área de estudo e quais foram meus trabalhos finais de curso e de mestrado. Mas no decorrer do meu SoP eu busquei mostrar minhas qualidades que foram desenvolvidas durante certas situações já vividas. Por exemplo, eu citei minha jornada de vestibular. Na época, eu fiz vários vestubulares (inclusive militares) e cheguei a morar 1 ano em outra cidade pra me preparar melhor. Eu quis mostrar como eu me dediquei e trabalhei duro pra conquistar meus objetivos. E ainda mostrei que, com isso, eu me tornei uma pessoa muito mais focada e disciplinada, em termos de estudos. Ou seja, o importante é você mostrar suas qualidades/características que são importantes pra realizar um doutorado fora do país, mas ao mesmo tempo, tentar relacioná-las com alguma história de vida sua, mostrando sua personalidade. Por último, eu concluí com um parágrafo de expectativas/planos em relação ao futuro depois do doutorado. No final das contas, meu SoP teve apenas uma introdução da minha área acadêmica e o desenvolvimento foi baseado em experiências vividas (pessoais ou profissionais) pra mostrar um pouco da minha personalidade.

O importante não é apenas contar uma história, mas sim saber contá-la pra tirar máximo proveito dos seus pontos positivos.

Ficou curioso sobre a SoP da Gisele?? Ela muito gentilmente disponibilizou o documento na íntegra! VEJA

 

A: Sobre as suas notas nos exames requeridos (TOEFL e GRE), o que você acha que fez a diferença para ser selecionada em uma universidade de excelência?

G: Eu não acho que o TOEFL ou o GRE tiveram um papel fundamental nas minhas aprovações. Na prova do GRE, principalmente pra quem é da área de engenharia (meu caso), acredito que é importante você dar mais atenção ao Quantitative Reasoning (acima de 160 pontos já é uma boa pontuação). Talvez isso tenha me ajudado (ou não tenha me atrapalhado) nas minhas aprovações.

A: O nível das disciplinas nos EUA é muito diferente do nível brasileiro?

G: Aqui nos EUA o conceito das aulas é bem diferente do Brasil. A carga horária de aulas por semana é mínima (no meu caso, 1 aula de 2h30 por semana) e espera-se que o aluno absorva grande parte do conteúdo estudando em casa e fazendo os exercícios que os professores pedem (deveres de casa, projetos, artigos, etc). Ou seja, o processo de aprendizagem é muito mais “auto-didata” aqui nos EUA, enquanto que no Brasil as aulas são mais lapidadas, exigindo menos esforço do aluno pra compreender o conteúdo. Não sei se dá pra comparar o “nível” das disciplinas entre os 2 países, mas definitivamente, você terá muito mais trabalho e terá que estudar MUITO mais nos EUA.  

A: Mesmo com a proficiência do inglês comprovada, você teve alguma dificuldade em acompanhar as aulas?

G: Quando eu me mudei aqui pra NY, no dia seguinte eu já estava indo pra minha primeira aula, ou seja, não tive muito tempo de me adaptar com o inglês antes. Além disso, especificamente aqui em NY, existem pessoas de TODO lugar do mundo, o que dificulta um pouco mais pra entender o inglês de cada indivíduo. Ex: o inglês de um chinês é diferente do inglês de um indiano, que é diferente do inglês de um coreano, europeu, africano, sul-americano, e por aí vai. Eu demorei um pouco (umas 2 semanas) pra me acostumar com as aulas (principalmente com um professor chinês, que foi o que eu tive a primeira aula). Mas logo na terceira semana as coisas começaram a fluir mais naturalmente. Outra dificuldade que eu tive com o inglês foi em relação a alguns termos técnicos da minha área que eu não era familiarizada. Fiz uma matéria onde eu tinha que anotar as palavras que eu nunca tinha escutado antes pra depois procurar num dicionário inglês/português específico da minha área. Mas depois das primeiras semanas eu também acabei me acostumando.

A: Como tem sido sua rotina de estudos/trabalho? Como são os horários na faculdade e o tempo de estudo em casa? Existem finais de semana e, quem sabe, férias… ou ficaremos presos em masmorras estudando e pesquisando?

G: Meu primeiro semestre (Fall 2013) foi muito INTENSO, afinal era tudo muito diferente do Brasil. Inicialmente, tive dificuldades de adaptação em relação à universidade e ao ritmo de estudos. Como eu já disse, a carga horária de aulas é pequena. Fiz 4 matérias no primeiro semestre (12 créditos no total, que é o mínimo pra ser considerado full-time student), cada uma delas tinha apenas 1 aula por semana com duração de 2h30. Mas em compensação, minha carga horária de estudos em casa era sem limites. Eu estudava TODOS os dias, praticamente o dia inteiro. Eu até queria fazer alguma atividade extra (tênis, por exemplo), mas foi impossível. No segundo semestre agora a carga de estudos continua grande, mas eu já tenho uma noção de como as coisas funcionam. Ou seja, continua intenso, mas eu me acostumei e aprendi a lidar melhor com essa situação. Eu também dei início à pesquisa nesse semestre (estou trabalhando num grupo de pesquisa como RA = research assistant) e estou aprendendo a conciliar essa parte com os estudos.

O início pode ser complicado, mas o tempo é sem dúvidas nosso melhor amigo nessa jornada.

Quanto às férias, estou indo pro Brasil agora no final de maio. Antes disso, eu usei alguns feriados (Thanksgiving, Natal) e os breaks (fall e spring breaks) pra espairecer e viajar um pouco por aqui. [Elas existem, afinal!!]

A: Escolheu viver on campus ou off campus? Por quê?

G: Escolhi morar off campus por dois motivos: primeiro porque meu marido já morava aqui em Brooklyn antes e segundo porque o preço é bem mais acessível fora de Manhattan. O transporte público aqui em NYC funciona super bem, então não tenho problemas para me deslocar até a universidade, mesmo que eu leve 1h pra chegar lá de metrô.

A: É realmente possível viver tranquilamente com a bolsa da CAPES? Você já precisou usar o plano de saúde?

G: No meu caso, meu marido já morava e trabalhava aqui em NY antes de eu me mudar pra cá, então até que consigo viver tranquilamente com a bolsa da CAPES. Mas se não fosse por isso, o aluguel aqui em NY é bem caro e acredito que a bolsa cobriria no máximo os gastos básicos de moradia, comida e transporte. Depende muito da cidade para onde você vai. O plano de saúde pra estudantes aqui na Columbia University é da AETNA. É um plano bom que cobre as necessidades básicas. Eu já utilizei aqui 2 vezes (em um hospital fora da universidade) e paguei só 30 dólares de co-payment pra uma clínica onde fiz exames. O maior problema é o fato de não cobrir consultas odontológicas. E dentista é algo caro aqui nos EUA. Fora isso, até agora deu tudo certo.    

A: Quanto tempo demorou pra sair o seu visto? Que dia a LASPAU lhe enviou o DS-2019* ?

G: Meu visto/passaporte demorou 5 dias pra chegar na minha casa em Brasília, depois de ser aprovado na entrevista no consulado. O meu DS-2019 foi enviado pela LASPAU por email no dia 02 de julho e no dia 08 de julho eu o recebi por correio (que é o que importa). A versão escaneada recebida por email não pode ser utilizada pra levar pra entrevista do visto, apenas a versão original do documento é válida. Por isso, é importante marcar a entrevista no consulado quando você já estiver com o DS-2019 EM MÃOS.

*NOTA DOS ABROADERS: O DS-2019 é um documento enviado pela LASPAU para você, sem o qual não é possível solicitar o agendamento de uma entrevista na embaixada para retirar o visto.  

A: Qual opção você escolheu pra gerir suas finanças? A CAPES sugere/exige alguma?

G: A CAPES envia um cartão BB Americas pra TODOS os bolsistas de doutorado pleno nos EUA. É assim que funciona. Você terá uma conta no BB Americas e a CAPES irá depositar os pagamentos da sua bolsa APENAS neste cartão. Não tem como mudar isso. O que você pode fazer (quase todos os bolsistas aqui fizeram) é abrir outra conta em um banco americano qualquer e transferir sempre o dinheiro do BB Americas pro seu banco americano. A transferência é rápida, sem taxas, e sem limites diários (tem apenas um limite de $2.000,00 por transação, mas você pode realizar várias transações num mesmo dia). Ou seja, super tranquilo.

A: Você precisou modificar o plano que enviou para a CAPES? Como foi esse procedimento?

G: A renovação da bolsa da CAPES acontece de ano em ano. Eu estou renovando a minha bolsa agora (tenho até final de maio pra enviar os documentos). Nessa renovação, você pode modificar seu plano de estudos escrevendo outro (acredito que pode ser mais simples do que o primeiro que fizemos). No meu caso, provavelmente terei que modificar, mas parece que não tem muito mistério não. O pedido de renovação é feito através do site da CAPES (http://sacexterior.capes.gov.br/sacexterior/) em Formulários Online. Alguns dos documentos que devemos enviar são: avaliação do orientador, cronograma de estudos, histórico escolar, relatório acadêmico.

A: Como está sendo a adaptação ao PhD até agora?

G: Eu diria que o primero semestre é o mais difícil em todos os sentidos. Eu nao conhecia ninguém e tive que me virar em tudo sozinha. Eu via que tinham muitos grupos (de chineses, indianos, americanos, etc) nas aulas de engenharia aqui. Foi difícil quebrar um pouco essa “segregação”, mas o que me ajudou muito a me inserir mais na universidade foi o meu grupo de pesquisas que tem 12 pessoas (9 são chineses, contando com meu professor).

Acho importante essa inserção dos alunos na universidade de algum modo. Minha dica é: tente conhecer pessoas e fazer amizades seja participando de um grupo social ou de pesquisa, seja fazendo algum tipo de atividade. Enfim, acho importante ter alguém pra conversar, tirar dúvidas, pedir ajuda, discutir sobre pesquisa em geral, etc. Isso pode ajudar muito na sua adaptação.

Hoje, eu já estou mais envolvida com a pesquisa, além das disciplinas. Aqui nos EUA, a pesquisa na universidade é muito valorizada. Geralmente, os projetos são apoiados financeiramente por empresas que investem pesado mesmo. Isso é super motivador! Acho importante essa conexão entre universidade e indústria (principalmente na área de engenharia).  

A: Que principal conselho você daria a quem está enfrentando esta jornada agora: tanto aos que já estão fazendo as malas como aos que estão iniciando suas candidaturas?

G: Aos que estão iniciando o processo agora, a caminhada é longa, cheia de obstáculos, mas tenha fé e muita paciência, acredite no seu potencial até o fim e não tenha medo de ousar nas suas escolhas. É possível pra TODOS! E pra quem já está na jornada, o conselho que eu dou é que tenham muita persistência e preparem-se (em todos os sentidos) pra virem pra cá! O choque é grande, mas além de toda a experiência acadêmica/profissional, a experiência de vida e o seu crescimento como indivíduo são impagáveis! Vale a pena!